Artigo: Deixe para amanhã – Dom Pedro Conti

Pedro_ContiDom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

Neste século de encontros e congressos, também os demônios convocaram uma assembleia. Seu objetivo era estudar novos métodos, mais eficientes para aumentar a sua freguesia, isto é, o número de sócios e candidatos ao inferno. Os palpites choveram de todos os lados:

– Vamos intensificar os programas de sexo e violência nos meios de comunicação.

– É preciso endurecer o coração do povo. Nada de fazer caridade. Formar a mentalidade que pobre é preguiçoso e que velho é peso morto.

– Vamos convencer o povo que missa e oração não enchem barriga. Religião é só para anestesiar as consciências.

– O povo deve aproveitar mais da vida. Mais prazer, mais drogas, mais bebidas, mais diversão. Os palpites continuavam, mas o chefe dos demônios sacudia a cabeça a cada nova sugestão.

– Isso tudo já estamos fazendo – dizia. Levantou-se, enfim, um demônio muito velho e experimentado que, pausadamente, deu a sua opinião:

– Vamos ensinar ao povo a fazer o que os padres ensinam, mas…comecem amanhã. Por exemplo: é necessário ir à missa e frequentar a comunidade, mas deixem para começar amanhã. É preciso corrigir os vícios, mas deixem para amanhã. Todos devem fazer o bem, mas deixem para fazer amanhã.

Essa opinião foi aprovada por unanimidade pela assembleia. E esta ficou sendo a tática diabólica: elogiar todas as boas iniciativas, mas sempre adiar para amanhã a sua execução.

Deixar as decisões para amanhã faz parte das famosas boas intenções das quais, dizem, é feito o piso do inferno. De fato, quando não se faz nada, ou pouco demais, nunca as coisas erradas vão mudar. Nesse sentido, é bom nos deixarmos surpreender, mais uma vez, pela insistência do evangelista Lucas em colocar nos lábios de Jesus a palavra “hoje”. Já a encontramos ao longo deste ano litúrgico e ainda a encontraremos no último domingo. “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é filho de Abraão” é a resposta de Jesus à declaração de Zaqueu, o chefe dos co bradores de impostos de Jericó: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.

Na página do evangelho, deste domingo, tudo parece acontecer às pressas. Na realidade, dá para perceber a longa inquietação de Zaqueu. A decisão dele não é um repente de loucura, mas a chegada de um longo caminho, após a superação de alguns obstáculos. Se alguém tem pressa é Jesus. É a pressa de quem ama. Com efeito, Zaqueu buscava ver quem era Jesus. Não sabemos o que Zaqueu pensava ou o que lhe tinham contado sobre o “profeta de Nazaré”. Devia ser um homem prático, acostumado na administração de bens palpáveis. Nada de conversa. Por isso, agora ele quer conhecer pessoalmente a Jesus. M as é baixo de estatura, a multidão atrapalha, é difícil ver o Mestre. Poderia desistir. Mas não, insiste, quer porque quer. Soube numa árvore. Agora dá para enxergar, mas antes quem o vê é o próprio Jesus que o chama pelo nome e se autoconvida para ir à casa dele.

A arte narrativa de Lucas é maravilhosa e profunda. Antes de Zaqueu procurar a Jesus fica claro que já era o próprio Jesus a querer encontrá-lo. Assim, aquela casa de cobranças, negócios, enganos, roubos e exploração se torna “casa de salvação”, porque qualquer lugar pode ser transformado – qualquer coração, qualquer intimidade – quando deixamos Jesus entrar. Zaqueu que tinha gastado tantas energias para acumular a sua fortuna agora fica feliz em doar metade dos seu bens aos pobres. Devolve quatro vezes mais a quem tinha defraudado. A falsa euforia de acumular desaparece; instala-se a pura alegria de poder fazer felizes os outros, os pob res, os injustiçados. Esta é a salvação. Aquele “hoje” foi um grande dia de festa na casa de Zaqueu. Como na casa do Pai, quando o filho perdido voltou; como na casa do Bom Pastor, quando a ovelha desgarrada foi encontrada. Todos nós buscamos a felicidade; muitas vezes por caminhos errados e com voltas infinitas. O único jeito certo para dar sentido à nossa vida é fazer o bem, amar como Jesus amou. Mas é para “hoje”, viu?

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