Jogando xadrez – Dom Pedro Conti

Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

      

O velho padre da paróquia tentou ajudar um pecador a emendar-se. Convidou-o para uma partida de xadrez, um jogo do qual sabia que ambos gostavam. Durante a partida fez um movimento errado. O homem ia aproveitar-se do engano, mas o padre pediu para desculpá-lo, dizendo que prestaria mais atenção na próxima vez. Pouco depois, porém, errou de novo. Desta vez o adversário se negou a relevar a falha. Disse-lhe então o padre, com a maior simplicidade: – Amigo, ficas tão irritado com o teu parceiro que cometeu dois erros numa partida de xadrez. No entanto, não faz nada para mudar a tua conduta e merecer que Deus perdoe os teus grandes pecados -. O homem entendeu, ficou cheio de remorso e prometeu corrigir-se.

O assunto dos evangelhos deste e do próximo domingo será o perdão dos pecados. Jesus inicia ensinando aquela que nós chamamos de “correção fraterna”. Em geral, quando entendemos que alguém quis, deliberadamente, nos ofender, agredir ou prejudicar, a nossa resposta instintiva é nos defender e revidar. Exigimos respeito para nós e os nossos direitos. Já sabemos, porém, que com a nossa resposta, mais ou menos agressiva, poderemos dar início a uma grave espiral de violência ou, no melhor dos casos, a uma troca de acusações e calúnias recíprocas.

Qualquer briga se espalha facilmente nas redes sociais. É difícil controlar a impaciência, manter a voz baixa e não nos deixar tomar pela cólera. Quando os ânimos são exaltados, parece cada vez mais impensável sair da disputa. Muitas grandes confusões começaram por pequenas e irrelevantes ofensas.  “Amigos” e familiares entraram no confronto e tudo virou uma questão de honra a ser lavada, às vezes, com o sangue dos contendentes. Quem apoia é amigo, quem não concorda, ou tenta apaziguar os ânimos, é taxado de inimigo. O mundo fica só preto ou branco. Desaparecem as cores das outras opções possíveis e mais sensatas.

Conhecedor do coração humano, Jesus nos diz logo de procurar o irmão que pecou contra nós. “A sós”, em particular; para esclarecer a situação e chegar a um acordo. Se isso acontecer, tudo irá acabar em paz, com um abraço fraterno, na amizade e na gratidão pelo perdão e a reconciliação. Pode ser, porém, que seja necessária alguma testemunha; não para humilhar quem errou e que não consegue reconhecer a sua culpa, mas para aconselhar, esclarecer os maus entendidos, ajuda-lo a assumir o compromisso de mudar. Se tiver boa vontade e valor a palavra dada, ainda daria tempo para uma solução pacífica. No entanto a questão pode ir mais longe A terceira tentativa de paz &eac ute; aquela de denunciar o culpado à Igreja-comunidade para que todos roguem a Deus por ele.

Se ainda o irmão não reconhecer a sua culpa e insistir no erro, o último passo será, infelizmente, o afastamento dele da própria comunidade. Um “desligamento” forçado, na espera que a pessoa chegue a pedir de ser “ligada” de novo na terra, para ser acolhida em paz também com o perdão do Pai do céu. A porta do perdão e da misericórdia deverá ficar sempre aberta. A comunidade rezará pelo irmão afastado, pedindo a Deus que ele sinta saudade dos demais, entenda o mal causado pela sua conduta e volte à casa paterna.

Para que tudo isso aconteça são necessárias duas condições. A primeira é aquela que existam comunidades que prezem pelos seus membros, que não queiram perder ninguém e que saibam acolher de volta quem se afastou. A segunda é que tenhamos a clara percepção da gravidade do pecado como algo que fere e machuca não somente uma ou outra pessoa, mas toda a Igreja-comunidade. Esta é o “Corpo de Cristo” visível na história, onde podemos reconhecer e encontrar Jesus vivo. Qualquer conflito e divisão desfigura o seu rosto.

Quem se preocupa com isso? A nossa consciência de fraternidade e de pertença à comunidade é fraca. Qualquer pequeno atrito é motivo para o afastamento. Se ninguém vai procurar a pessoa para pedir-lhe desculpa ou saber o que aconteceu, a separação está feita. Sem volta e sem remorsos. Fé jogada fora. Talvez bastaria uma partida de xadrez para reconhecer que todos podemos errar, na Igreja também.

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