Suicídio ganha contornos de epidemia e precisa ser debatido

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O suicídio está cada vez mais frequente na mídia por conta das celebridades que o têm cometido. E está ganhando contornos de epidemia.

Segundo o psiquiatra e coordenador da Saúde Mental, Álcool e outras Drogas do município, Alexandre Moreno Sandri, o suicídio é um fenômeno multifatorial, mas em geral resulta de um processo de intenso sofrimento psíquico, associado ao sentimento de desesperança, que, em condições extremas, pode resultar no desejo de morte.

“A presença de um transtorno mental, especialmente de transtornos do humor, entre os quais figuram os quadros depressivos, se caracteriza como um fator de risco importante para a crise suicida. Outros aspectos aos quais devemos atentar são a ocorrência de tentativas de suicídio anteriores, a presença de doenças graves, a vivência de conflitos conjugal ou familiar, situações de luto e a facilidade de acesso aos meios comumente utilizados”, explica Alexandre.

Muitas vezes o suicídio vem de fortes sintomas de depressão. Para a psiquiatra Maria Cristina de Stefano, ele é o desfecho de doenças mentais gravíssimas de pessoas que não pedem ajuda pelo medo do julgamento e do preconceito. “Eu friso sete sinais que levam uma pessoa ao suicídio: desânimo, decepção, depressão, dependência química, desespero, desamparo e desesperança”, conta.


Cristina, além de estudar sobre o assunto, sentiu o trauma na pele. Em novembro de 2012 o seu filho Felipe, de 34 anos, cometeu suicídio. “Ele morava sozinho e era reservado. Depois do acontecimento descobri que não o conhecíamos. Ele sofria, tinha um alcoolismo grave, pintava quadros e escreveu um diário por 10 anos, mas tudo isso descobrimos após a morte dele”, revela. “Os quadros que ele pintava já davam sinais, mas ninguém sabia. O suicida não fala, mas ele se comunica”, completa.

Os diários de Felipe foram publicados na tentativa de ajudar outras famílias. O título é “Suicídio – Epidemia Calada”. Ele pode ser encontrado na biblioteca municipal Nelson Foot ou pela internet (www.suicidioepidemiacalada.com.br).

Relação com as drogas

Para Cristina, quando há o quadro de depressão, a busca pelas drogas é uma maneira de sair da realidade. “É uma dor psíquica muito forte e a pessoa não consegue ter um alívio. Porém, o alcoolismo, que é o mais frequente, leva à depressão também”, argumenta. A prova disso é que dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 50% dos casos de suicídio acontecem por conta da relação das drogas com a depressão.

O discurso é acompanhado por Alexandre. Segundo ele, o uso de drogas não é um fator que, isoladamente, pode desencadear uma crise suicida. No entanto, o uso abusivo de algumas substâncias, em especial o álcool, pode se constituir como fator de risco para o suicídio. “Além de acentuar quadros depressivos, o álcool poder atuar no rebaixamento da crítica do sujeito diante de situações de risco, podendo atuar como desinibidor, que facilite a passagem ao ato suicida”, garante.

É importante falar

Ao contrário do que diz a opinião pública, ao evitar o tema, os psiquiatras consideram fundamental ter essa conversa. “É importante estabelecer vínculos, mostrar empatia e ouvir de forma atenta e sem julgamento, tomando cuidado para não minimizar o sofrimento”, diz Alexandre. “É importante frisar que o suicídio tem prevenção. Procurar ajuda de um profissional é fundamental, pois a pessoa pode não se dar conta e conversar sobre o tema e mostrar que há uma saída é uma maneira de alertar”, completa Cristina.

Para isso, em todo o país, há uma atuação importante do Centro de Valorização da Vida (CVV) – uma associação sem fins lucrativos que dá apoio emocional através de conversa de forma anônima e sigilosa. “Muitas vezes as pessoas não falam por medo da crítica, mas nos procuram por ser anônimo. Quando a pessoa fala alivia a pressão e ela melhora”, afirma a porta-voz nacional do CVV, Eliane Soares.
Ela conta que o serviço do CVV tem aumentado muito. Em 2016, em todo território nacional foram 1 milhão de atendimentos. Em 2017, o número dobrou. “É gratificante ouvir os outros de coração aberto. A pessoa precisa colocar para fora para que os pensamentos não a dominem e muitos nos ligam no final do ano para agradecer a ajuda que demos em algum momento da vida.” O site do Centro é www.cvv.org.br . Para conversar com um voluntário basta ligar para 188.


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